vê esse ar que flutua inerte entre nós. vejo um silêncio de cristal nítido e poroso. não o rompa, por favor, não o rompa. lhe emprestei uma fragilidade que me era necessária e veja! eu falando mais do que sempre. recolhendo cada pedaço do cristal que se parte em tantos quanto um pode partir quando o amor silencia assim. ouve só. nem eu.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
¿CACHAI?
"...y cuando lo miré su rostro exhibía una sonrisa que quería decir soy adulto, he comprendido que para disfrutar del arte no hace falta hacer el ridículo, no hace falta escribir ni arrastrarse."
BOLAÑO, Roberto. Llamadas telefónicas (1997).
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O CANTO DA UNIDADE
“Somente
em Deus
repousam
muitos
rostos
como se fora
a rosa
de uma rosa
a se esconder
na rosa
de um rosa
e assim ad infinitum
que o nada
só tem rosto
de escamas e de espinhos”
Lucchesi
quarta-feira, 6 de abril de 2011
ÉCFRASE
(sem título)
30 cm x 25 cm
grafite sobre papel
a lembrança da cama ainda está em mim. o travesseiro sofre a falta do meu contorno aquecido de febre que surge sempre no mesmo minuto, desbotando em pele no seguinte. quando atingir a memória nula serei capaz de uma liberdade que é intrínseca somente aos outros, e que por novidade de surpresa, em susto, não a tocarei. não pensar sempre foi meu forte, mas a clarividência é inalcançável e tem sido assim. me foge a oportunidade de sentir determinadas sensações protegidas em plástico-bolha para outra encarnação: o amor, o descuido, a verdadeira cólera. e outras me sobram, transbordam em beiras de vitrais translúcidos onde toda a cena acontece e só o tempo não pode ser colhido. da minha cama é possível ver a janela e dela um mundo de corpos que forjam diariamente o estado de não-febre. cuspo a tosse permitindo ao material atravessar fronteiras que nunca ousei, outros mundos. sei que aqui é verde e sei o que significa, mas das cores de lá pouco entendo, novas medidas. tons pastéis sempre foram a mim de efeito energético, ativando um esboço de felicidade arcaica. e faz silêncio demais para que se durma.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
FERNANDO PESSOA, EU MESMA
Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego.
sábado, 23 de outubro de 2010
CONFITEOR
Ouvia as preces com interesse distraído. Quando sem querer captava alguma delas, concluía que o egoísmo ocupava cada milímetro dos corpos humanos. Sentia nojo e procurava redirecionar seu pensamento a qualquer outra coisa mais digna. Às vezes, quando de bom humor, achava tudo muito engraçado e ria gargalhadas que coloriam o céu de azul turquesa. Não era sua função ajudá-los. Um dia qualquer ele chorou. A prece sincera era só pensamento. Diferente de tantas outras de fé dissimulada. A mãe pedia proteção ao filho. E pedia perdão por pedir proteção ao filho. Assumia saber que não era a reza que salvava os corpos. A vizinha perdera o caçula na semana anterior. Mesmo rezando todos os dias. Ele chorou. Não era sua função ajudá-los. Encheu os pulmões de ar e gritou que ela tinha sim razão, mas se lhe fazia bem rezar, que o fizesse sempre. As línguas não eram as mesmas e pela janela do quarto dela entrou apenas uma brisa balançando as cortinas entediadas. O animal observava tudo com interesse distraído. Mais tarde levantou, lambeu lágrimas salgadas do chão e se foi.
domingo, 17 de outubro de 2010
VERSINHO PRA VOVÓ SORRIR
dói de tanto não saber se vai valer a pena
eu sei, a saudade eu sei que vale,
mas custa acreditar
que é você nessa cama
sorriso torto,
beleza fraca,
tentando não deixar de ser
dói de tanto não saber se vai ser o bastante
eu sei, o seu sorriso eu sei que dura,
mas custa acreditar
que é o último
e que vai ter que dar conta
daqueles que jamais virão.
amanhã talvez o sol venha nos visitar
espera qu'eu preparo o chá,
e pão de mel pra adoçar as suas manhãs
amanhã talvez me deixem te visitar
vem cá, me dê aquele abraço,
qu'eu não te solto nunca mais
sua filha me fez passarinho
de canto baixo,
presença pouca,
mas capaz de voar alto pra te encontrar
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